Terça-feira, 28 de Setembro de 2004

Uma questão de exemplo

 


Sem querer perturbar o descanso eterno de Darwin e de Freud, arrisco-me a afirmar que as sociedades humanas se baseiam em larga medida nos exemplos que os seus cidadãos mais ilustres dão aos restantes, aos do lado de cá. A mediatização das sociedades veio agravar exponencialmente esta tendência, ao ponto de cada palavra, cada gesto ou cada olhar de um ídolo, ser por vezes entendido como algo de transcendental, de semidivino. Tentando fugir aos estereótipos e consciente que “todos os homens são iguais mas que há sempre uns mais iguais do que outros”, passemos um rápido olhar pela nossa sociedade e vejamos se assim é:


 1 – Os nossos políticos dão exemplos de como colocar sempre os interesses próprios à frente do interesse comum e de como um “fala-barato” pode aspirar ascender à liderança e a enormes responsabilidades, sem ter o mínimo de preparação e de competência para o fazer;


2 – Os nossos gestores públicos dão exemplos de contenção salarial ao pagarem sempre o menos possível aos seus funcionários, com uma pequena excepção, uma gota de água, diga-se de passagem, no que respeita aos seus próprios salários, alcavalas e reformas;


 3 - Os nossos gestores privados dão exemplos de sucesso ao entrarem para o “top10” dos mais bem pagos da CEE, enquanto que as empresas que gerem nem no “top das melhores 1000” ainda entraram;


4 – Os nossos industriais dão exemplos da sua elevada consciência social ao despedirem umas dezenas ou centenas de pessoas para “garantir a sobrevivência da fábrica e dos restantes postos de trabalho”, e depois se metem no Ferrari, registado em nome da mulher ou do tio e voltam tranquilamente para a sua mansão;


5 – Os nossos (grandes) agricultores dão exemplos de como se pode ganhar muito dinheiro sem produzir rigorosamente nada (para quê trabalhar se há uns tansos lá na CEE que lhes pagam para não produzir!) pelo que, patrioticamente, investem esses fundos em acções na bolsa e em imobiliário;


6 – Os nossos (pequenos) comerciantes dão exemplos de criatividade e de lucidez, ao virem protestar contra a inqualificável proliferação dos centros comerciais e hipermercados que nascem como cogumelos por tudo quanto é sítio;


7 – Os nossos jornalistas dão exemplos aos próprios abutres, à espera que o sangue jorre para caírem em cima da presa e se manterem lá agarrados enquanto isso vender papel;


8 – Os nossos juízes e advogados dão exemplos magníficos da nossa nobre, equitativa e célere justiça, protegendo corajosa e atempadamente os mais necessitados e humildes da prepotência dos mais ricos e dos mais fortes (consegui escrever isto tudo sem me rir!);


9 – Os nossos médicos dão exemplos ao Hipócrates em pessoa, que nunca se deve ter lembrado de fazer greve para receber as horas extraordinárias em atraso, quando tinha por perto pessoas a sofrer ou, quiçá, a morrer;


10 – Os nossos professores dão exemplos ao seus alunos, mostrando-lhes como se pode “atropelar” os próprios colegas, ao pedir atestados médicos falsos para ficar mais perto de casa, prejudicando assim outros colegas realmente doentes;


11 – Os nossos técnicos dão exemplos de como qualquer projecto que devia ser feito por X euros e em Y meses, se pode miraculosamente realizar no dobro do tempo e pelo triplo do dinheiro, sem nunca se perceber a razão por que tal acontece;


12 – Os nossos industriais do turismo (sobretudo os algarvios) dão exemplos de como o turismo de qualidade em Portugal pode ser barato para os estrangeiros e caro para os portugueses, conseguindo assim atrair revoadas de trolhas e estivadores alemães ou ingleses, sedentos de sol, mulheres e cerveja baratas, não necessariamente por esta ordem;


 13 – Os nossos arqueólogos dão exemplos de como a arqueologia longe do ar condicionado só começa a ter interesse a partir do momento em que se decide construir qualquer coisa e enquanto der para escrever uns quantos artigos para revistas da especialidade;


14 - Os nossos ecologistas dão exemplos parecidos com os anteriores, doutro modo não se entende onde é eles estavam e porque não fizeram o escarcéu do costume e exigiram medidas quando o país quase que ardeu de alto a baixo (2003), como fizeram daquela vez em que alguém quase arrancou as penas da cauda da águia de Bonnelli.


Mais não sei que dizer... Talvez pudesse continuar por aqui abaixo por mais algum tempo (até o siX me sanear de vez deste blog...), mas julgo que, para exemplo, estes exemplos já são suficientes.


 


VIVA PORTUGAL e VIVAM AS PERCEBAS.


 PERCEBAS_01.JPG


 

publicado por siX às 23:33
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6 comentários:
De berlim a 3 de Outubro de 2004 às 02:49
Também gostava de saber...
têm a palavra os colegas do Dr.Jones.


De marcos osrio a 1 de Outubro de 2004 às 16:07
E o que pensarão os arqueólogos deste comentário?


De berlim a 1 de Outubro de 2004 às 01:05
Com tantos e tão bons exemplos, o texto quase que se escreveu sózinho... Outro dia vou tentar escrever sobre o lado positivo da nossa RPB, o que irá ser uma missão muito mais complicada. Obrigado pelo comentário, Pio.


De Pio XXI a 30 de Setembro de 2004 às 22:15
nem pensar, Berlim! com toda esta inspiração, está desde já obrigado a partir diariamente. Quasi!


De berlim a 29 de Setembro de 2004 às 13:41
eu sabia que depois desta ia ser despedido... ok, siX, volto daqui a um ano ;-)


De siX a 29 de Setembro de 2004 às 09:26
caramba... neste texto colocaste o que muitos não conseguem num ano... :_)


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